15 junho 2006

A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE NO PERÍODO COLONIAL(1)

A Igreja Católica em Moçambique no período colonial
Durante o período colonial, mormente após o Acordo Missionário de 1940, a Igreja Católica em Moçambique, não obstante a identificação de alguns dos seus elementos mais proeminentes com o regime, como o caso do Cardeal D. Teodósio Clemente de Gouveia, Arcebispo de Lourenço Marques ( actual Maputo), teve um importante papel de intervenção social e de denúncia de abusos através de alguns dos seus Bispos, dos quais importa destacar D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira, o seu sucessor D. Altino Ribeiro de Santana, e D. Manuel Vieira Pinto , da diocese de Nampula.
Sem embargo da abordagem da importância da actuação pessoal de cada um daqueles no contexto epocal, tendo-se completado no pretérito dia 14 do corrente mês de Junho cem anos sobre a data do nascimento de D. Sebastião Soares de Resende, respigamos a propósito da efeméride alguns textos evocativos daquele eminente Príncipe da Igreja que, com a devida vénia, parcialmente reproduzimos, inserindo os respectivos “links” para a sua consulta integral.





D.SEBASTIÃO SOARES DE RESENDE

«Natural da freguesia de Milheirós de Poiares, concelho de Santa Maria da Feira (Portugal), onde nasceu a 14 de Junho de 1906, D. Sebastião foi figura de relevo do clero da diocese do Porto.

Tendo sido em 1943 nomeado Bispo da Beira, uma das dioceses criadas em Moçambique a partir do Acordo Missionário de 1940 (as outras foram Lourenço Marques (Maputo) e Nampula), logo iniciou uma actividade que se revelaria cheia de dinamismo de futuro.

Como escreveu D. Eurico Dias Nogueira: “Impulsionou o ensino de base (especialmente para os autóctones) e abriu escolas para o secundário, quase inexistente na região. Criou paróquias e missões e fundou o “Diário de Moçambique”, logo caracterizado pela independência política e capacidade de intervenção. Publicou duas dezenas de Cartas Pastorais, de índole social, sempre de grande actualidade e não pouca audácia. Por isso passou a ser olhado com desconfiança e vigiado pelo poder constituído que lhe fez uma guerra sem quartel. Consta que este impediu a sua promoção a Arcebispo metropolita – quando faleceu o Cardeal Arcebispo de D. Teodósio de Gouveia (1962), como parecia ser desejo da Santa Sé - e procurou mesmo afastá-lo de Moçambique”.
D. Sebastião participou no II Concílio do Vaticano (1962 a 1965), onde teve participação activa.

Tendo-se declarado uma enfermidade cancerosa, que se revelou ao longo do ano de 1966, após tratamentos na Europa, D. Sebastião quis regressar à sua Diocese da Beira, onde faleceu em 25 de Janeiro de 1967, aos 61 anos de idade.
A figura de D. Sebastião foi recordada e homenageada em Milheirós, numa celebração eucarística presidida pelo Bispo Auxiliar de Lisboa D. Carlos Azevedo, com a participação de Monsenhor Sebastião Martins Luís Brás, sobrinho de D. SebastiãoResende.
Conforme anunciou D. Carlos Azevedo, para o dia 17 de Junho prepara-se uma homenagem mais completa a D. Sebastião Soares de Resende, com uma celebração presidida pelo Bispo do Porto, uma sessão solene e a inauguração de uma estátua de D. Sebastião que ficará no adro da Igreja Paroquial de Milheirós de Poiares. A estátua é da autoria da escultora Irene Vilar.»

http://www.oecumene.radiovaticana.org/por/Articolo.asp?c=77183
«D. Teodósio Clemente de Gouveia, 1.º Arcebispo de Lourenço Marques.
Porventura o maior defensor da causa colonial portuguesa no seio da igreja católica fosse o Arcebispo de Lourenço Marques, o Cardeal D. Teodósio Gouveia. No seu relatório anual de 1958, enviado ao Governador-Geral, anunciava a inauguração do Seminário S. Pio X nos seguintes termos:«Foi inaugurado no começo do ano escolar de 1958-1959 este novo Seminário. Destina-se a seminaristas europeus ou filhos de europeus. (…) O facto deste Seminário destinar-se apenas a seminaristas brancos, não é por espírito racista, mas pelo facto de a distância social e educativa entre as crianças brancas e pretas ser ainda muito grande».Teodósio Clemente de Gouveia nasceu a 13 de Maio de 1889 em S. Jorge, na ilha da Madeira. Foi ordenado sacerdote a 19 de Abril de 1919, no Funchal, e apontado como Prelado de Moçambique em 18 de Maio de 1936. A 5 de Julho desse mesmo ano era elevado a Bispo, sendo apontado como 1.º Arcebispo de Lourenço Marques a 4 de Setembro de 1940, lugar de que tomaria assento em 18 de Janeiro de 1941. Em 18 de Fevereiro de 1946 era elevado à condição de Cardeal. Faleceu em 6 de Fevereiro de 1962. »

A origem madeirense daquele purpurado estava em sintonia com a maioria dos elementos com altas funções governativas ao tempo em Moçambique, a começar pelo próprio Governador-Geral Comandante Gabriel Maurício Teixeira, e o Secretário-Geral Juvenal de Carvalho, de pendor fortemente colonialista.

D. Sebastião Soares de Resende homenageado na sua terra natal
100º aniversário do seu nascimento

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Realizou-se no sábado, dia 29 de Abril, a prevista homenagem ao que foi primeiro Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende.
Natural da freguesia de Milheirós de Poiares, pertencente ao Concelho de Santa Maria da Feira, onde nasceu a 14 de Junho de 1906, sendo baptizado “aos oito dias do mês de Julho de 1906”, conforme reza o seu assento de Baptismo. D. Sebastião foi figura distinta do clero da diocese do Porto. Tendo sido em 1943 nomeado Bispo da Beira, uma das dioceses criadas em Moçambique a partir do Acordo Missionário de 1940 (as outras foram Lourenço Marques (Maputo) e Nampula, logo iniciou uma actividade que se revelaria cheia de dinamismo de futuro. Escreve D. Eurico Dias Nogueira (que bem o conheceu ao tornar-se Bispo de Vila Cabral (1964): “Impulsionou o ensino de base – especialmente para os autóctones – e abriu escolas para o secundário, quase inexistente na região. Criou paróquias e missões e fundou o Diário de Moçambique. Logo caracterizado pela independência política e capacidade de intervenção. Publicou duas dezenas de Cartas Pastorais, de índole social, sempre de grande actualidade e não pouca audácia. Por isso passou a ser olhado com desconfiança e vigiado pelo poder constituído que lhe fez uma guerra sem quartel. Consta que este impediu a sua promoção a Arcebispo metropolita – quando faleceu o Cardeal Arcebispo de D. Teodósio de Gouveia (1962), como parecia ser desejo da Santa Sé - e procurou mesmo afastá-lo de Moçambique”.
D. Sebastião participou no II Concílio do Vaticano (1962 a 1965), onde teve participação activa. Tendo-se declarado uma enfermidade cancerosa, que se revelou ao longo do ano de 1966, após tratamentos na Europa, D. Sebastião quis regressar à sua Diocese da Beira, onde faleceu em 25 de Janeiro de 1967, aos 61 anos de idade.
Testemunha D. Eurico Nogueira: “O impressionante cortejo [fúnebre] demorou uma hora até ao cemitério. Nunca supus que atingisse tal grandiosidade e emoção: talvez mais de 30 mil pessoas”.
“Sobre a sua humilde campa rasa, apenas se vê uma singela legenda, que ele mesmo escolheu, ao redigir o seu testamento que é, com o emocionante diário íntimo, o espelho fiel da sua alma cristalina: Sebastião, primeiro Bispo da Beira” – escreve D. Eurico no seu “singelo depoimento” na memória publicada pela Liga dos Amigos da Feira Dom Sebastião Soares de Resende, 1.º Bispo da Beira.
A figura de D. Sebastião foi recordada e homenageada em Milheirós, numa celebração eucarística presidida pelo Bispo Auxiliar de Lisboa D. Carlos Azevedo, com a participação do pároco, P. Fernando Gonçalves e de Monsenhor Sebastião Martins Luís Brás, sobrinho de D. Sebastião Resende.
Seguiu-se uma sessão de evocação, que contou com a presença, além de D. Carlos Azevedo, e do pároco local, do Presidente da Câmara, Alfredo Henriques, do Presidente da Liga dos Amigos da Feira, Celestino Portela, também Director da Revista Amigos da Feira (que publica a separata sobre D. Sebastião), de David Simões Rodrigues (autor do principal texto dessa homenagem, intitulado “D. Sebastião Soares de Resende – Percurso de uma vida”, do Presidente da Junta de Freguesia, de sacerdotes do concelho e vizinhos, de membros da família, entre os quais José Soares Martins, também sobrinho de D. Sebastião e seu antigo secretário, e que promoveu a doação do seu espólio ao Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras do Porto.
Das palavras ditas, importa reter a memória do seu trabalho pastoral, social e cultural, com a fundação de missões, escolas, paróquias, instituições de assistência aos mais carenciados, numa verdadeira “missão civilizadora”, como disse o orador David Simões Rodrigues, que considerou as 400 folhas do seu processo na Polícia Política, as Suas Cartas, o seu Diário e toda a sua obra como “um património moral” da Igreja e da sociedade.
O Presidente da Câmara saudou o papel dos estudiosos e investigadores, entre os quais de Carlos Azevedo, no trabalho cultural que desenvolvem para valorização da terra e das gentes.
Carlos Azevedo afirmou significativamente que D. Sebastião foi um profeta da Igreja em Moçambique, uma personalidade ímpar e rara, felicitando os presentes pelo facto da terra se lembrar dos seus filhos. Mas, disse, esta homenagem não devia ser da terra: devia ser uma homenagem nacional, afirmando que referira isso na recente reunião da Conferência Episcopal. (No comunicado final desta reunião faz-se uma referência aos centenários de D. António Ferreira Gomes e de D. Sebastião, curiosamente nascidos no mesmo ano, com poucos dias de diferença).
O volume agora publicado, para além do historial atrás referido, apresenta textos de Cardoso da Costa (Presidente da Assembleia Municipal), Alfredo Henriques (Presidente da Câmara), D. Jaime Pedro Gonçalves (actual Arcebispo da Beira), D. Carlos Azevedo, Manuel Leão (sacerdote natural de Milheirós), D. Eurico Nogueira, Adriano Moreira, António de Almeida Santos, Sebasdtião Brás e José Soares Martins (sobrinhos do D. Sebastião) e Roberto Carlos (sobre as referências ao Bispo no Correio da Feira). E conclui com o texto do seu testamento
ESte volume não é muito extenso (apenas 83 páginas) mas é muito significativo, ilustrado com vários documentos e imagens que recordam a vida, o trabalho e o ensinamento de D. Sebastião. Recorda-se que existe uma compilação das suas Cartas Pastorais (de que se destacam temas como a Educação em África, as responsabilidades dos cristãos, os problemas de Moçambique, os problemas do comunismo, a missão do padre e do missionário), com o título Profeta em Moçambique, organizado e prefaciado por Adriano Moreira – do qual fez uma oferta a João Paulo II. (“Algumas medidas da minha responsabilidade governativa tiveram apoio nas intervenções corajosas e lúcidas que lhe ficamos a dever – escreve Adriano Moreira no seu depoimento”).

Preparação de uma homenagem

Conforme anunciou D. Carlos Azevedo, no dia 17 de Junho prepara-se uma homenagem mais completa a D. Sebastião Soares de Resende, com uma celebração presidida pelo Bispo do Porto, uma sessão solene e a inauguração de uma estátua de D. Sebastião que ficará no adro da Igreja Paroquial de Milheirós de Poiares. A estátua é da autoria da escultora Irene Vilar.
Do programa previsto constam: Apresentação do colóquio, por Carlos Azevedo; Ser o primeiro Bispo de uma Diocese missionária, por D. Augusto César Ferreira da Silva, Bispo emérito de Portalegre e Castelo Branco; O carácter inovador da doutrinação missionária do primeiro Bispo da Beira, por Adriano Moreira, da Universidade Católica; D. Sebastião como investigador, por David Simões Rodrigues, investigador; A permanência viva da acção de D. Sebastião, por D. Jaime Gonçalves, Bispo da Beira.
Segue-se a inauguração da estátua e uma solene concelebração a que preside o Bispo do Porto.

Tendo sido nomeado Bispo da Beira com apenas 37 anos de idade e tendo exercido esse múnus pastoral missionário da forma que expressou ao pretender morrer e ficar sepultado na terra onde o exerceu talvez como símbolo de doação sem limites a uma mátria assumida, terá D. Sebastião, com tal gesto enobrecido sobremaneira a terra que fora sua pátria. (José Soares Martins e Sebastião Brás).
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Nacional Voz Portucalense 03/05/2006
http://www.agencia.ecclesia.pt/dioceses/noticia.asp?noticiaid=31950




«O Profeta da Beira»
D. Sebastião Soares de Resende nos 100 anos do seu nascimento
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A 14 de Junho de 2006 perfazem-se cem anos sobre a data de nascimento de D. Sebastião Soares de Resende.
Este cidadão ilustre, natural de Milheirós de Poiares, (Santa Maria da Feira), foi o primeiro bispo da Beira (Moçambique) e “temos dele uma memória inapagável” – salienta D. Jaime Pedro Gonçalves, arcebispo da Beira, no livro de homenagem a este “grande pastor que evangelizou uma área que deu até hoje cinco dioceses (Beira, Quelimane, Chimoio, Tete e Gurué)”.
Defensor da Justiça em favor dos “mais fracos e oprimidos”, D. Sebastião Soares de Resende promoveu a “educação da juventude das missões com milhares de escolas primárias” e idealizou para aquele país lusófono uma sociedade “integrada de raças e cidadãos iguais, perante a lei, apesar das diferenças”.
Atitudes que mereceram reacções de “perseguição por parte do regime político de então” – sublinha D. Jaime Gonçalves no seu artigo «D. Sebastião Soares de Resende nosso primeiro bispo».
Foi pai do semanário «A Voz Africana», da revista «Economia» e do famoso «Diário de Moçambique». Órgãos de Comunicação Social que ele utilizava para a evangelização, mormente nas palestras quaresmais. D. Jaime Gonçalves refere mesmo que a “censura do Estado Novo maltratou o «Diário de Moçambique» e chegou, como punição, a ser proibido durante 30 dias”. Depois deste e outros episódios tornou-se “extremamente difícil a manutenção financeira do jornal”.
D. Sebastião morreu em Janeiro de 1967 e aquele diário de referência foi vendido pelo sucessor em 1970. “A Santa Sé autorizou a sua venda” e um dos mais renhidos adversários do 1º bispo da Beira – o detentor do «Notícias» - comprou-o.

Evangelizar através da Comunicação Social

O «Diário de Moçambique» nasceu na véspera do Natal de 1950. Deu à luz depois de D. Sebastião visualizar o “quotidiano violento da exploração colonial patente nas relações de produção” (Capela, José; “D. Sebastião e o «Diário de Moçambique»”; in: Revista «Síntese»). Antes de fundar aquele órgão de Comunicação Social (em 1944), o 1º bispo da Beira teve este comentário depois de observar as condições de trabalho numa serração de madeira: “impera na Beira a escravatura”. E acrescentou: “uma vez que conheça abusos hei-de empregar todos os meios para os debelar ainda que seja a imprensa”.
O documento «Aetatis Novae» - Instrução Pastoral sobre as Comunicações Sociais no 20º Aniversário da «Communio et Progressio» - salienta que os cristãos “têm efectivamente o dever de fazer ouvir a sua voz no seio de todos os mass media”. E avança: “a tarefa deles não se limita unicamente à transmissão de notícias eclesiásticas”. Alguns anos antes da publicação deste documento, este precursor da importância dos meios de Comunicação Social na evangelização não se intimidou com as ameaças e denunciou as injustiças por isso foi considerado – “pela craveira apostólica e intelectual, coragem e persistência” – o “maior «resistente»” (Freire, José Geraldes; in: “Resistência Católica ao Salazarismo - Marcelismo).

Denunciar as injustiças e deficiências

Sagrado bispo da Beira em 1943, no aniversário da sua tomada de posse na diocese moçambicana (8 de Dezembro) dirigia uma pastoral ao seu rebanho “sempre repleta de conteúdos doutrinários e incidindo muitas vezes em aspectos concretos que denunciavam injustiças e deficiências” - (in: “Resistência Católica ao Salazarismo - Marcelismo). Na Pastoral de 1946 sobre “Colonização Portuguesa”, D. Sebastião Soares de Resende condena o “trabalho compelido” dos indígenas. E acrescenta: “quando observo o que se passa, principalmente com trabalhadores indígenas, e entre estes, com os que labutam junto da maior parte das nossas empresas, vejo-me forçado a reconhecer que não somos cristãos nem humanos”. Nesta e noutras conjunturas, o prelado natural de Santa Maria da Feira agia exclusivamente na convicção de estar na defesa de “direitos inamovíveis da pessoa humana e totalmente alheio, como sempre se manteve, relativamente a qualquer vinculação política” - (Capela, José; “D. Sebastião e o «Diário de Moçambique»”; in: Revista «Síntese»).
O desenvolvimento do ensino naquela diocese foi também um dos grandes feitos de D. Sebastião. “É a ele que se deve o lançamento do Ensino Secundário na Beira, começando pela Fundação do Instituto Liceal D. Gonçalo da Silveira e posteriormente os Colégios de Vila Pery e de Tete” – (Brandão, Pedro Ramos; “O primeiro bispo da Beira”; in: Revista «História» de Novembro de 2004). O bispo da Beira sabia que a utilização que o Estado Português estava a dar à Igreja, em Moçambique, poderia criar “uma perniciosa confusão nos indígenas e levá-los a ver a Igreja Católica como uma extensão administrativa do Estado Português” – (In: Revista «História»). Perante esta previsível situação, D. Sebastião Soares de Resende fez sempre um esforço de tornar pública a diferença entre a evangelização e o ensino ministrado. “O professor era uma coisa, o catequista era outra. Esta posição dentro da Igreja Católica moçambicana não era de todo aceite; a maioria dos padres portugueses acomodara-se ao facto de ser vista pelo Governo como funcionalismo público, com o seu ordenado mensal” – (In: Revista «História»). No entanto, o primeiro bispo da Beira tudo tentou para esclarecer a opinião pública e os habitantes indígenas sobre as diferenças: “a acção missionária não pode terminar nas escolas. Há que se exercer também nos postos catequéticos”. (In: Revista «História»). Na sua Pastoral de Dezembro de 1951 – “O problema da Educação em África” –, D. Sebastião alerta para o problema “dos professores assassinos” e da educação dos indígenas. Um documento incomodativo que foi “proibido de circular” porque o Governo é “laico, mesmo quando se proclama cristão, e não aceita, na prática, a doutrina da Igreja” - (in: “Resistência Católica ao Salazarismo - Marcelismo).

A revolução interior no Santuário de Lourdes

Recebeu a ordenação presbiteral a 21 de Outubro de 1928 quando tinha apenas 22 anos de idade. No mês seguinte foi enviado para Roma para prosseguir os estudos na Pontifícia Universidade Gregoriana onde se doutorou em Filosofia. O doutoramento em Teologia sofreu um revés devido ao início da Segunda Guerra Mundial. Aquando da viagem para Roma parou no Santuário de Lourdes (França) e escreveu uma carta ao Pe. José Leite Dias Pinho, conterrâneo do ainda Pe. Sebastião Soares de Resende. Na missiva relata que atravessou “Hespanha com espírito de touriste, mas em, Lourdes operou-se uma revolução em mim para tudo fazer com ânimo cristão, mais, eclesiástico” (Azevedo, Carlos Moreira; “O carácter do bispo da Beira através da correspondência com dois padres milheiroenses”, in: Revista «Villa da Feira – Terra de Santa Maria» de Fevereiro de 2006). A grandeza desta experiência interior vivida em Lourdes impulsionou-o e avivou-lhe o sentido harmónico do ser cristão.
Em Roma assiste à assinatura (11 de Fevereiro de 1929) dos Pactos de Latrão entre o Cardeal Gasparri e Benito Mussolini. Numa carta enviada (2 de Maio de 1929) ao Pe. José Leite Dias Pinho, o estudante romano utiliza um humor refinado para descrever a assinatura do acordo: “com certeza, Garibaldi nesse dia chorou mais uma lágrima”. Esta expressão cheia de ironia sobre “a figura anticlerical de Garibaldi, iniciador do dissídio entre Igreja e Estado Italiano, que durou sessenta anos, transmite a simplicidade jubilosa do amor à Igreja, alimentado por Sebastião” - (Azevedo, Carlos Moreira; “O carácter do bispo da Beira através da correspondência com dois padres milheiroenses”, in: Revista «Villa da Feira – Terra de Santa Maria» de Fevereiro de 2006).

Um tomista que não foi ouvido

Após o ciclo formativo na «cidade eterna» é convidado para professor no Seminário Maior do Porto. Aí, lecciona as cadeiras de Teologia Sacramental e Filosofia. Aos 28 anos foi convidado para vice-reitor do referido seminário e dois anos mais tarde (1936) o bispo do Porto nomeia-o membro do cabido. Um antigo aluno do homenageado, o Pe. Manuel Leão – também natural de Milheirós de Poiares – sublinha no artigo “D. Sebastião Resende – Uma Evocação, no seu Centenário” que o prelado era um “ferrenho tomista”. A filosofia de Aristóteles passando “pelos trabalhos de S. Tomás de Aquino entusiasmou D. Sebastião” – (in: Revista «Villa da Feira – Terra de Santa Maria» de Fevereiro de 2006). O último ano do agora Pe. Manuel Leão no Seminário Teológico foi também o último ano do vice-reitor, que, entretanto, foi nomeado (21 de Abril de 1943) bispo da Beira.
Deixou a metrópole e foi evangelizar “um laboratório de problemas novos que entusiasma as inteligências mais vigorosas” – (In: Carta ao Pe. Manuel Valente de Pinho Leão – datada de 19 de Março de 1946). Esta troca de correspondência entre estes dois filhos de Milheirós de Poiares dá autoridade ao Pe. Manuel Leão para afirmar que “pude acompanhar as iniciativas extraordinárias próprias dum homem de ideias, com uma actividade incansável que marcou um lugar paradigmático nas missões pastorais, na educação e imprensa. O vasto horizonte em que esteve situada a sua vida apostólica fê-lo deixar para trás certas visões acanhadas que os muros do Seminário continham” - (in: D. Sebastião Resende – Uma Evocação, no seu centenário). Num artigo para a referida revista Vila da Feira, António Almeida Santos, Presidente da Assembleia da República de Novembro de 1995 a Abril de 2002, sublinha que “foi pena, muita pena, e uma grande perda para Portugal, que a sua voz não pudesse ter sido ouvida. Se o fora, o desastre que foi o fim da nossa saga colonial, teria sido evitado”.
Em 26 de Janeiro de 1967 (morreu no dia anterior) podia ler-se no «Diário de Moçambique»: “… Homem voltado para a realidade do seu tempo, o Senhor Bispo da Beira foi, sob muitos aspectos, um precursor do avanço social verificado na África Portuguesa… algumas das suas pastorais e muitas peças da sua pregação constituíram gritos de autêntico profeta…”.

Luís Filipe Santos
http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=33455






“Profeta em Moçambique”

«Podemos dizer que a contestação da política portuguesa em África foi iniciada pelo “Profeta em Moçambique“, D. Sebastião Soares de Resende. Para D. Ernesto Gonçalves Costa, D. Sebastião “(...) esteve sempre na vanguarda dos que mais defenderam e lutaram pela justiça, pelos direitos humanos e pela elevação e educação dos moçambicanos (...)” (21). Para Adriano Moreira, D. Sebastião, inquietado por questões administrativas com o Estado e enredado em incidentes com a Censura, tinha por questão os Portugueses no Mundo, por adversário o problema das injustiças na sociedade colonial, como interlocutores os pobres e por eixo da roda o Evangelho (22). Aquele Bispo empenhou-se com insistência na necessidade de intervenção da acção social, combatendo as estruturas que incluíam o trabalho forçado, a negação de direitos políticos e a limitação efectiva do acesso ao ensino superior (que só surgiu no território em 1962), defendendo a abolição do Estatuto do Indigenato, e a criação dos estudos universitários na África Portuguesa, e sustentando a necessidade de integração na plenitude total dos Negros e Brancos em Moçambique (23).

Para Eduardo Mondlane, D. Sebastião era a excepção à regra dos mais altos dignitários da Igreja em Moçambique, que sempre revelaram tendência para prestar apoio à política e à conduta do Governo Português. Da interpretação feita das pastorais e das posições assumidas por D. Sebastião no “Diário de Moçambique”, jornal que dirigia, Mondlane considerava-o, apesar de contestatário das práticas políticas africanas portuguesas, apenas como um liberalista político e não como um reformulador radical; concebia um Moçambique independente, mas apenas dentro de uma comunidade de interesses portugueses (24).

O primeiro Bispo da Beira optou por uma postura polémica para o Poder. Na Carta Pastoral “Moçambique na encruzilhada” (25), datada de 1 de Dezembro de 1958, o discurso é nitidamente pela igualdade racial, pela justiça, pelo apelo à verdade e pelo bem. As suas pastorais eram escritas a partir de factos reais, de informações objectivas recolhidas por si ou pelos missionários, na área das missões (26). Só após possuir os factos, D. Sebastião passava à acção junto das autoridades ou através dos seus escritos, normalmente no “Diário de Moçambique”, o jornal da Diocese, que era, tal como os outros, submetido à Censura. A excepção foi a publicação da homilia feita aquando da comemoração moçambicana do 25º aniversário do Acordo Missionário. Por despacho do Governador-Geral, resultou na suspensão do Jornal por 10 dias.

Segundo Soares Martins, o “Diário de Moçambique”, na sua fase “contestatária”, dada a especial censura e vigilância que sobre ele se exercia, distinguia-se dos outros periódicos mais pelo que calava do que por aquilo que dizia, uma vez que não era possível ser emitida opinião. Aconteceu mesmo ter deixado, deliberadamente, de publicar discursos de Ministros e de Governadores-Gerais, a única possível manifestação contrária (27).

Em Moçambique, só após o Concílio Vaticano II e no seguimento das reflexões de D. Sebastião é que o processo de discussão do papel da Igreja no mundo moderno é encetado. Era a designada Renovação Pastoral Missionária, indicadora da necessidade de reflexão e mudança (28). A guerra veio forçar a Igreja a um marcar de posição política, e os reveses sofridos por esta (como a prisão ou expulsão de algumas Ordens e indivíduos) acabaram também por produzir benefícios para a luta independentista (29). »

Francisco Miguel Gouveia Pinto Proença Garcia, “ANÁLISE GLOBAL DE UMA GUERRA (MOÇAMBIQUE 1964-1974)” - Dissertação para a obtenção do Grau de Doutor em História ,Universidade Portucalense . Orientação dos: Prof. Doutor Joaquim da Silva Cunha e Prof. Doutor Fernando Amaro Monteiro.
Porto . Outubro de 2001
http://www.triplov.com/miguel_garcia/mocambique/capitulo3/igreja.htm

2 Comments:

Blogger Paulo Sempre said...

"Fátima desmascarada",..um livro que , para mim, foi importante.

Paulo

9:54 da tarde  
Blogger Paulo Sempre said...

Excelente!!!

Paulo

9:56 da tarde  

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