10 Junho 2008

Livre como o vento...

Hoje cumpri a penosa tarefa de abreviar a agonia de um fiel amigo.
Surgiu, há alguns anos atrás, sempre furtivo, até estabelecer-se uma confiança mútua, vindo a deixar-se capturar.
De porte franzino, ficou-lhe o apodo de Nino, de pequenino. Inteligente e vivo, mas também humilde e leal, foi um dedicado companheiro dos últimos anos.
Dos tempos de abandono e errância, provavelmente, contraiu a insidiosa leichmaniose.
Repousa agora no solo da Quinta onde encontrou guarida, junto do caminho que terá calcorreado vezes sem conta, livre como o vento...
Prefiro recordá-lo, como naquela ocasião em que em louca correria colidiu comigo, ficando ambos estatelados, embrulhados numa indizível fraternidade.
Gostaria de imaginá-lo, liberto das peias terrenas, a vaguear pelos espaços siderais, como a estrela mais brilhante ( Sírius) da constelação do Cão!

26 Dezembro 2007

NATAL

Após uma longa interrupção, regressamos ao [dis]curso deste blog, esperando desta vez dar-lhe continuidade, mais assiduamente, propondo-nos tratar, não somente assuntos relacionados com o nosso passado histórico, mas temas da actualidade, e com incidência quanto ao futuro.
No entanto, tendo em consideração a quadra que atravessamos, que perdeu a sua perspectiva humanista, para se tornar num mero pretexto a um desenfreado consumismo, deixamos à reflexão dos nossos visitantes ( cujo número, embora modesto, anima-nos a prosseguir), este extraordinário poema intitulado «Natal», da autoria de um grande Poeta, hoje injustamente esquecido, de nome Álvaro Feijó(1).

NATAL
Nasceu.
Foi numa cama de folhelho
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Lisboa, Dezembro de 1940

(1)vide "A Poesia de Álvaro Feijó", por João José Cochofel, in «Os Poemas de Álvaro Feijó», Colecção Poetas de Hoje 1, Portugália Editora, Lisboa, 1961.

15 Junho 2006

A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE NO PERÍODO COLONIAL(1)

A Igreja Católica em Moçambique no período colonial
Durante o período colonial, mormente após o Acordo Missionário de 1940, a Igreja Católica em Moçambique, não obstante a identificação de alguns dos seus elementos mais proeminentes com o regime, como o caso do Cardeal D. Teodósio Clemente de Gouveia, Arcebispo de Lourenço Marques ( actual Maputo), teve um importante papel de intervenção social e de denúncia de abusos através de alguns dos seus Bispos, dos quais importa destacar D. Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira, o seu sucessor D. Altino Ribeiro de Santana, e D. Manuel Vieira Pinto , da diocese de Nampula.
Sem embargo da abordagem da importância da actuação pessoal de cada um daqueles no contexto epocal, tendo-se completado no pretérito dia 14 do corrente mês de Junho cem anos sobre a data do nascimento de D. Sebastião Soares de Resende, respigamos a propósito da efeméride alguns textos evocativos daquele eminente Príncipe da Igreja que, com a devida vénia, parcialmente reproduzimos, inserindo os respectivos “links” para a sua consulta integral.





D.SEBASTIÃO SOARES DE RESENDE

«Natural da freguesia de Milheirós de Poiares, concelho de Santa Maria da Feira (Portugal), onde nasceu a 14 de Junho de 1906, D. Sebastião foi figura de relevo do clero da diocese do Porto.

Tendo sido em 1943 nomeado Bispo da Beira, uma das dioceses criadas em Moçambique a partir do Acordo Missionário de 1940 (as outras foram Lourenço Marques (Maputo) e Nampula), logo iniciou uma actividade que se revelaria cheia de dinamismo de futuro.

Como escreveu D. Eurico Dias Nogueira: “Impulsionou o ensino de base (especialmente para os autóctones) e abriu escolas para o secundário, quase inexistente na região. Criou paróquias e missões e fundou o “Diário de Moçambique”, logo caracterizado pela independência política e capacidade de intervenção. Publicou duas dezenas de Cartas Pastorais, de índole social, sempre de grande actualidade e não pouca audácia. Por isso passou a ser olhado com desconfiança e vigiado pelo poder constituído que lhe fez uma guerra sem quartel. Consta que este impediu a sua promoção a Arcebispo metropolita – quando faleceu o Cardeal Arcebispo de D. Teodósio de Gouveia (1962), como parecia ser desejo da Santa Sé - e procurou mesmo afastá-lo de Moçambique”.
D. Sebastião participou no II Concílio do Vaticano (1962 a 1965), onde teve participação activa.

Tendo-se declarado uma enfermidade cancerosa, que se revelou ao longo do ano de 1966, após tratamentos na Europa, D. Sebastião quis regressar à sua Diocese da Beira, onde faleceu em 25 de Janeiro de 1967, aos 61 anos de idade.
A figura de D. Sebastião foi recordada e homenageada em Milheirós, numa celebração eucarística presidida pelo Bispo Auxiliar de Lisboa D. Carlos Azevedo, com a participação de Monsenhor Sebastião Martins Luís Brás, sobrinho de D. SebastiãoResende.
Conforme anunciou D. Carlos Azevedo, para o dia 17 de Junho prepara-se uma homenagem mais completa a D. Sebastião Soares de Resende, com uma celebração presidida pelo Bispo do Porto, uma sessão solene e a inauguração de uma estátua de D. Sebastião que ficará no adro da Igreja Paroquial de Milheirós de Poiares. A estátua é da autoria da escultora Irene Vilar.»

http://www.oecumene.radiovaticana.org/por/Articolo.asp?c=77183
«D. Teodósio Clemente de Gouveia, 1.º Arcebispo de Lourenço Marques.
Porventura o maior defensor da causa colonial portuguesa no seio da igreja católica fosse o Arcebispo de Lourenço Marques, o Cardeal D. Teodósio Gouveia. No seu relatório anual de 1958, enviado ao Governador-Geral, anunciava a inauguração do Seminário S. Pio X nos seguintes termos:«Foi inaugurado no começo do ano escolar de 1958-1959 este novo Seminário. Destina-se a seminaristas europeus ou filhos de europeus. (…) O facto deste Seminário destinar-se apenas a seminaristas brancos, não é por espírito racista, mas pelo facto de a distância social e educativa entre as crianças brancas e pretas ser ainda muito grande».Teodósio Clemente de Gouveia nasceu a 13 de Maio de 1889 em S. Jorge, na ilha da Madeira. Foi ordenado sacerdote a 19 de Abril de 1919, no Funchal, e apontado como Prelado de Moçambique em 18 de Maio de 1936. A 5 de Julho desse mesmo ano era elevado a Bispo, sendo apontado como 1.º Arcebispo de Lourenço Marques a 4 de Setembro de 1940, lugar de que tomaria assento em 18 de Janeiro de 1941. Em 18 de Fevereiro de 1946 era elevado à condição de Cardeal. Faleceu em 6 de Fevereiro de 1962. »

A origem madeirense daquele purpurado estava em sintonia com a maioria dos elementos com altas funções governativas ao tempo em Moçambique, a começar pelo próprio Governador-Geral Comandante Gabriel Maurício Teixeira, e o Secretário-Geral Juvenal de Carvalho, de pendor fortemente colonialista.

D. Sebastião Soares de Resende homenageado na sua terra natal
100º aniversário do seu nascimento

.
Realizou-se no sábado, dia 29 de Abril, a prevista homenagem ao que foi primeiro Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende.
Natural da freguesia de Milheirós de Poiares, pertencente ao Concelho de Santa Maria da Feira, onde nasceu a 14 de Junho de 1906, sendo baptizado “aos oito dias do mês de Julho de 1906”, conforme reza o seu assento de Baptismo. D. Sebastião foi figura distinta do clero da diocese do Porto. Tendo sido em 1943 nomeado Bispo da Beira, uma das dioceses criadas em Moçambique a partir do Acordo Missionário de 1940 (as outras foram Lourenço Marques (Maputo) e Nampula, logo iniciou uma actividade que se revelaria cheia de dinamismo de futuro. Escreve D. Eurico Dias Nogueira (que bem o conheceu ao tornar-se Bispo de Vila Cabral (1964): “Impulsionou o ensino de base – especialmente para os autóctones – e abriu escolas para o secundário, quase inexistente na região. Criou paróquias e missões e fundou o Diário de Moçambique. Logo caracterizado pela independência política e capacidade de intervenção. Publicou duas dezenas de Cartas Pastorais, de índole social, sempre de grande actualidade e não pouca audácia. Por isso passou a ser olhado com desconfiança e vigiado pelo poder constituído que lhe fez uma guerra sem quartel. Consta que este impediu a sua promoção a Arcebispo metropolita – quando faleceu o Cardeal Arcebispo de D. Teodósio de Gouveia (1962), como parecia ser desejo da Santa Sé - e procurou mesmo afastá-lo de Moçambique”.
D. Sebastião participou no II Concílio do Vaticano (1962 a 1965), onde teve participação activa. Tendo-se declarado uma enfermidade cancerosa, que se revelou ao longo do ano de 1966, após tratamentos na Europa, D. Sebastião quis regressar à sua Diocese da Beira, onde faleceu em 25 de Janeiro de 1967, aos 61 anos de idade.
Testemunha D. Eurico Nogueira: “O impressionante cortejo [fúnebre] demorou uma hora até ao cemitério. Nunca supus que atingisse tal grandiosidade e emoção: talvez mais de 30 mil pessoas”.
“Sobre a sua humilde campa rasa, apenas se vê uma singela legenda, que ele mesmo escolheu, ao redigir o seu testamento que é, com o emocionante diário íntimo, o espelho fiel da sua alma cristalina: Sebastião, primeiro Bispo da Beira” – escreve D. Eurico no seu “singelo depoimento” na memória publicada pela Liga dos Amigos da Feira Dom Sebastião Soares de Resende, 1.º Bispo da Beira.
A figura de D. Sebastião foi recordada e homenageada em Milheirós, numa celebração eucarística presidida pelo Bispo Auxiliar de Lisboa D. Carlos Azevedo, com a participação do pároco, P. Fernando Gonçalves e de Monsenhor Sebastião Martins Luís Brás, sobrinho de D. Sebastião Resende.
Seguiu-se uma sessão de evocação, que contou com a presença, além de D. Carlos Azevedo, e do pároco local, do Presidente da Câmara, Alfredo Henriques, do Presidente da Liga dos Amigos da Feira, Celestino Portela, também Director da Revista Amigos da Feira (que publica a separata sobre D. Sebastião), de David Simões Rodrigues (autor do principal texto dessa homenagem, intitulado “D. Sebastião Soares de Resende – Percurso de uma vida”, do Presidente da Junta de Freguesia, de sacerdotes do concelho e vizinhos, de membros da família, entre os quais José Soares Martins, também sobrinho de D. Sebastião e seu antigo secretário, e que promoveu a doação do seu espólio ao Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras do Porto.
Das palavras ditas, importa reter a memória do seu trabalho pastoral, social e cultural, com a fundação de missões, escolas, paróquias, instituições de assistência aos mais carenciados, numa verdadeira “missão civilizadora”, como disse o orador David Simões Rodrigues, que considerou as 400 folhas do seu processo na Polícia Política, as Suas Cartas, o seu Diário e toda a sua obra como “um património moral” da Igreja e da sociedade.
O Presidente da Câmara saudou o papel dos estudiosos e investigadores, entre os quais de Carlos Azevedo, no trabalho cultural que desenvolvem para valorização da terra e das gentes.
Carlos Azevedo afirmou significativamente que D. Sebastião foi um profeta da Igreja em Moçambique, uma personalidade ímpar e rara, felicitando os presentes pelo facto da terra se lembrar dos seus filhos. Mas, disse, esta homenagem não devia ser da terra: devia ser uma homenagem nacional, afirmando que referira isso na recente reunião da Conferência Episcopal. (No comunicado final desta reunião faz-se uma referência aos centenários de D. António Ferreira Gomes e de D. Sebastião, curiosamente nascidos no mesmo ano, com poucos dias de diferença).
O volume agora publicado, para além do historial atrás referido, apresenta textos de Cardoso da Costa (Presidente da Assembleia Municipal), Alfredo Henriques (Presidente da Câmara), D. Jaime Pedro Gonçalves (actual Arcebispo da Beira), D. Carlos Azevedo, Manuel Leão (sacerdote natural de Milheirós), D. Eurico Nogueira, Adriano Moreira, António de Almeida Santos, Sebasdtião Brás e José Soares Martins (sobrinhos do D. Sebastião) e Roberto Carlos (sobre as referências ao Bispo no Correio da Feira). E conclui com o texto do seu testamento
ESte volume não é muito extenso (apenas 83 páginas) mas é muito significativo, ilustrado com vários documentos e imagens que recordam a vida, o trabalho e o ensinamento de D. Sebastião. Recorda-se que existe uma compilação das suas Cartas Pastorais (de que se destacam temas como a Educação em África, as responsabilidades dos cristãos, os problemas de Moçambique, os problemas do comunismo, a missão do padre e do missionário), com o título Profeta em Moçambique, organizado e prefaciado por Adriano Moreira – do qual fez uma oferta a João Paulo II. (“Algumas medidas da minha responsabilidade governativa tiveram apoio nas intervenções corajosas e lúcidas que lhe ficamos a dever – escreve Adriano Moreira no seu depoimento”).

Preparação de uma homenagem

Conforme anunciou D. Carlos Azevedo, no dia 17 de Junho prepara-se uma homenagem mais completa a D. Sebastião Soares de Resende, com uma celebração presidida pelo Bispo do Porto, uma sessão solene e a inauguração de uma estátua de D. Sebastião que ficará no adro da Igreja Paroquial de Milheirós de Poiares. A estátua é da autoria da escultora Irene Vilar.
Do programa previsto constam: Apresentação do colóquio, por Carlos Azevedo; Ser o primeiro Bispo de uma Diocese missionária, por D. Augusto César Ferreira da Silva, Bispo emérito de Portalegre e Castelo Branco; O carácter inovador da doutrinação missionária do primeiro Bispo da Beira, por Adriano Moreira, da Universidade Católica; D. Sebastião como investigador, por David Simões Rodrigues, investigador; A permanência viva da acção de D. Sebastião, por D. Jaime Gonçalves, Bispo da Beira.
Segue-se a inauguração da estátua e uma solene concelebração a que preside o Bispo do Porto.

Tendo sido nomeado Bispo da Beira com apenas 37 anos de idade e tendo exercido esse múnus pastoral missionário da forma que expressou ao pretender morrer e ficar sepultado na terra onde o exerceu talvez como símbolo de doação sem limites a uma mátria assumida, terá D. Sebastião, com tal gesto enobrecido sobremaneira a terra que fora sua pátria. (José Soares Martins e Sebastião Brás).
.
Nacional Voz Portucalense 03/05/2006
http://www.agencia.ecclesia.pt/dioceses/noticia.asp?noticiaid=31950




«O Profeta da Beira»
D. Sebastião Soares de Resende nos 100 anos do seu nascimento
.
A 14 de Junho de 2006 perfazem-se cem anos sobre a data de nascimento de D. Sebastião Soares de Resende.
Este cidadão ilustre, natural de Milheirós de Poiares, (Santa Maria da Feira), foi o primeiro bispo da Beira (Moçambique) e “temos dele uma memória inapagável” – salienta D. Jaime Pedro Gonçalves, arcebispo da Beira, no livro de homenagem a este “grande pastor que evangelizou uma área que deu até hoje cinco dioceses (Beira, Quelimane, Chimoio, Tete e Gurué)”.
Defensor da Justiça em favor dos “mais fracos e oprimidos”, D. Sebastião Soares de Resende promoveu a “educação da juventude das missões com milhares de escolas primárias” e idealizou para aquele país lusófono uma sociedade “integrada de raças e cidadãos iguais, perante a lei, apesar das diferenças”.
Atitudes que mereceram reacções de “perseguição por parte do regime político de então” – sublinha D. Jaime Gonçalves no seu artigo «D. Sebastião Soares de Resende nosso primeiro bispo».
Foi pai do semanário «A Voz Africana», da revista «Economia» e do famoso «Diário de Moçambique». Órgãos de Comunicação Social que ele utilizava para a evangelização, mormente nas palestras quaresmais. D. Jaime Gonçalves refere mesmo que a “censura do Estado Novo maltratou o «Diário de Moçambique» e chegou, como punição, a ser proibido durante 30 dias”. Depois deste e outros episódios tornou-se “extremamente difícil a manutenção financeira do jornal”.
D. Sebastião morreu em Janeiro de 1967 e aquele diário de referência foi vendido pelo sucessor em 1970. “A Santa Sé autorizou a sua venda” e um dos mais renhidos adversários do 1º bispo da Beira – o detentor do «Notícias» - comprou-o.

Evangelizar através da Comunicação Social

O «Diário de Moçambique» nasceu na véspera do Natal de 1950. Deu à luz depois de D. Sebastião visualizar o “quotidiano violento da exploração colonial patente nas relações de produção” (Capela, José; “D. Sebastião e o «Diário de Moçambique»”; in: Revista «Síntese»). Antes de fundar aquele órgão de Comunicação Social (em 1944), o 1º bispo da Beira teve este comentário depois de observar as condições de trabalho numa serração de madeira: “impera na Beira a escravatura”. E acrescentou: “uma vez que conheça abusos hei-de empregar todos os meios para os debelar ainda que seja a imprensa”.
O documento «Aetatis Novae» - Instrução Pastoral sobre as Comunicações Sociais no 20º Aniversário da «Communio et Progressio» - salienta que os cristãos “têm efectivamente o dever de fazer ouvir a sua voz no seio de todos os mass media”. E avança: “a tarefa deles não se limita unicamente à transmissão de notícias eclesiásticas”. Alguns anos antes da publicação deste documento, este precursor da importância dos meios de Comunicação Social na evangelização não se intimidou com as ameaças e denunciou as injustiças por isso foi considerado – “pela craveira apostólica e intelectual, coragem e persistência” – o “maior «resistente»” (Freire, José Geraldes; in: “Resistência Católica ao Salazarismo - Marcelismo).

Denunciar as injustiças e deficiências

Sagrado bispo da Beira em 1943, no aniversário da sua tomada de posse na diocese moçambicana (8 de Dezembro) dirigia uma pastoral ao seu rebanho “sempre repleta de conteúdos doutrinários e incidindo muitas vezes em aspectos concretos que denunciavam injustiças e deficiências” - (in: “Resistência Católica ao Salazarismo - Marcelismo). Na Pastoral de 1946 sobre “Colonização Portuguesa”, D. Sebastião Soares de Resende condena o “trabalho compelido” dos indígenas. E acrescenta: “quando observo o que se passa, principalmente com trabalhadores indígenas, e entre estes, com os que labutam junto da maior parte das nossas empresas, vejo-me forçado a reconhecer que não somos cristãos nem humanos”. Nesta e noutras conjunturas, o prelado natural de Santa Maria da Feira agia exclusivamente na convicção de estar na defesa de “direitos inamovíveis da pessoa humana e totalmente alheio, como sempre se manteve, relativamente a qualquer vinculação política” - (Capela, José; “D. Sebastião e o «Diário de Moçambique»”; in: Revista «Síntese»).
O desenvolvimento do ensino naquela diocese foi também um dos grandes feitos de D. Sebastião. “É a ele que se deve o lançamento do Ensino Secundário na Beira, começando pela Fundação do Instituto Liceal D. Gonçalo da Silveira e posteriormente os Colégios de Vila Pery e de Tete” – (Brandão, Pedro Ramos; “O primeiro bispo da Beira”; in: Revista «História» de Novembro de 2004). O bispo da Beira sabia que a utilização que o Estado Português estava a dar à Igreja, em Moçambique, poderia criar “uma perniciosa confusão nos indígenas e levá-los a ver a Igreja Católica como uma extensão administrativa do Estado Português” – (In: Revista «História»). Perante esta previsível situação, D. Sebastião Soares de Resende fez sempre um esforço de tornar pública a diferença entre a evangelização e o ensino ministrado. “O professor era uma coisa, o catequista era outra. Esta posição dentro da Igreja Católica moçambicana não era de todo aceite; a maioria dos padres portugueses acomodara-se ao facto de ser vista pelo Governo como funcionalismo público, com o seu ordenado mensal” – (In: Revista «História»). No entanto, o primeiro bispo da Beira tudo tentou para esclarecer a opinião pública e os habitantes indígenas sobre as diferenças: “a acção missionária não pode terminar nas escolas. Há que se exercer também nos postos catequéticos”. (In: Revista «História»). Na sua Pastoral de Dezembro de 1951 – “O problema da Educação em África” –, D. Sebastião alerta para o problema “dos professores assassinos” e da educação dos indígenas. Um documento incomodativo que foi “proibido de circular” porque o Governo é “laico, mesmo quando se proclama cristão, e não aceita, na prática, a doutrina da Igreja” - (in: “Resistência Católica ao Salazarismo - Marcelismo).

A revolução interior no Santuário de Lourdes

Recebeu a ordenação presbiteral a 21 de Outubro de 1928 quando tinha apenas 22 anos de idade. No mês seguinte foi enviado para Roma para prosseguir os estudos na Pontifícia Universidade Gregoriana onde se doutorou em Filosofia. O doutoramento em Teologia sofreu um revés devido ao início da Segunda Guerra Mundial. Aquando da viagem para Roma parou no Santuário de Lourdes (França) e escreveu uma carta ao Pe. José Leite Dias Pinho, conterrâneo do ainda Pe. Sebastião Soares de Resende. Na missiva relata que atravessou “Hespanha com espírito de touriste, mas em, Lourdes operou-se uma revolução em mim para tudo fazer com ânimo cristão, mais, eclesiástico” (Azevedo, Carlos Moreira; “O carácter do bispo da Beira através da correspondência com dois padres milheiroenses”, in: Revista «Villa da Feira – Terra de Santa Maria» de Fevereiro de 2006). A grandeza desta experiência interior vivida em Lourdes impulsionou-o e avivou-lhe o sentido harmónico do ser cristão.
Em Roma assiste à assinatura (11 de Fevereiro de 1929) dos Pactos de Latrão entre o Cardeal Gasparri e Benito Mussolini. Numa carta enviada (2 de Maio de 1929) ao Pe. José Leite Dias Pinho, o estudante romano utiliza um humor refinado para descrever a assinatura do acordo: “com certeza, Garibaldi nesse dia chorou mais uma lágrima”. Esta expressão cheia de ironia sobre “a figura anticlerical de Garibaldi, iniciador do dissídio entre Igreja e Estado Italiano, que durou sessenta anos, transmite a simplicidade jubilosa do amor à Igreja, alimentado por Sebastião” - (Azevedo, Carlos Moreira; “O carácter do bispo da Beira através da correspondência com dois padres milheiroenses”, in: Revista «Villa da Feira – Terra de Santa Maria» de Fevereiro de 2006).

Um tomista que não foi ouvido

Após o ciclo formativo na «cidade eterna» é convidado para professor no Seminário Maior do Porto. Aí, lecciona as cadeiras de Teologia Sacramental e Filosofia. Aos 28 anos foi convidado para vice-reitor do referido seminário e dois anos mais tarde (1936) o bispo do Porto nomeia-o membro do cabido. Um antigo aluno do homenageado, o Pe. Manuel Leão – também natural de Milheirós de Poiares – sublinha no artigo “D. Sebastião Resende – Uma Evocação, no seu Centenário” que o prelado era um “ferrenho tomista”. A filosofia de Aristóteles passando “pelos trabalhos de S. Tomás de Aquino entusiasmou D. Sebastião” – (in: Revista «Villa da Feira – Terra de Santa Maria» de Fevereiro de 2006). O último ano do agora Pe. Manuel Leão no Seminário Teológico foi também o último ano do vice-reitor, que, entretanto, foi nomeado (21 de Abril de 1943) bispo da Beira.
Deixou a metrópole e foi evangelizar “um laboratório de problemas novos que entusiasma as inteligências mais vigorosas” – (In: Carta ao Pe. Manuel Valente de Pinho Leão – datada de 19 de Março de 1946). Esta troca de correspondência entre estes dois filhos de Milheirós de Poiares dá autoridade ao Pe. Manuel Leão para afirmar que “pude acompanhar as iniciativas extraordinárias próprias dum homem de ideias, com uma actividade incansável que marcou um lugar paradigmático nas missões pastorais, na educação e imprensa. O vasto horizonte em que esteve situada a sua vida apostólica fê-lo deixar para trás certas visões acanhadas que os muros do Seminário continham” - (in: D. Sebastião Resende – Uma Evocação, no seu centenário). Num artigo para a referida revista Vila da Feira, António Almeida Santos, Presidente da Assembleia da República de Novembro de 1995 a Abril de 2002, sublinha que “foi pena, muita pena, e uma grande perda para Portugal, que a sua voz não pudesse ter sido ouvida. Se o fora, o desastre que foi o fim da nossa saga colonial, teria sido evitado”.
Em 26 de Janeiro de 1967 (morreu no dia anterior) podia ler-se no «Diário de Moçambique»: “… Homem voltado para a realidade do seu tempo, o Senhor Bispo da Beira foi, sob muitos aspectos, um precursor do avanço social verificado na África Portuguesa… algumas das suas pastorais e muitas peças da sua pregação constituíram gritos de autêntico profeta…”.

Luís Filipe Santos
http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=33455






“Profeta em Moçambique”

«Podemos dizer que a contestação da política portuguesa em África foi iniciada pelo “Profeta em Moçambique“, D. Sebastião Soares de Resende. Para D. Ernesto Gonçalves Costa, D. Sebastião “(...) esteve sempre na vanguarda dos que mais defenderam e lutaram pela justiça, pelos direitos humanos e pela elevação e educação dos moçambicanos (...)” (21). Para Adriano Moreira, D. Sebastião, inquietado por questões administrativas com o Estado e enredado em incidentes com a Censura, tinha por questão os Portugueses no Mundo, por adversário o problema das injustiças na sociedade colonial, como interlocutores os pobres e por eixo da roda o Evangelho (22). Aquele Bispo empenhou-se com insistência na necessidade de intervenção da acção social, combatendo as estruturas que incluíam o trabalho forçado, a negação de direitos políticos e a limitação efectiva do acesso ao ensino superior (que só surgiu no território em 1962), defendendo a abolição do Estatuto do Indigenato, e a criação dos estudos universitários na África Portuguesa, e sustentando a necessidade de integração na plenitude total dos Negros e Brancos em Moçambique (23).

Para Eduardo Mondlane, D. Sebastião era a excepção à regra dos mais altos dignitários da Igreja em Moçambique, que sempre revelaram tendência para prestar apoio à política e à conduta do Governo Português. Da interpretação feita das pastorais e das posições assumidas por D. Sebastião no “Diário de Moçambique”, jornal que dirigia, Mondlane considerava-o, apesar de contestatário das práticas políticas africanas portuguesas, apenas como um liberalista político e não como um reformulador radical; concebia um Moçambique independente, mas apenas dentro de uma comunidade de interesses portugueses (24).

O primeiro Bispo da Beira optou por uma postura polémica para o Poder. Na Carta Pastoral “Moçambique na encruzilhada” (25), datada de 1 de Dezembro de 1958, o discurso é nitidamente pela igualdade racial, pela justiça, pelo apelo à verdade e pelo bem. As suas pastorais eram escritas a partir de factos reais, de informações objectivas recolhidas por si ou pelos missionários, na área das missões (26). Só após possuir os factos, D. Sebastião passava à acção junto das autoridades ou através dos seus escritos, normalmente no “Diário de Moçambique”, o jornal da Diocese, que era, tal como os outros, submetido à Censura. A excepção foi a publicação da homilia feita aquando da comemoração moçambicana do 25º aniversário do Acordo Missionário. Por despacho do Governador-Geral, resultou na suspensão do Jornal por 10 dias.

Segundo Soares Martins, o “Diário de Moçambique”, na sua fase “contestatária”, dada a especial censura e vigilância que sobre ele se exercia, distinguia-se dos outros periódicos mais pelo que calava do que por aquilo que dizia, uma vez que não era possível ser emitida opinião. Aconteceu mesmo ter deixado, deliberadamente, de publicar discursos de Ministros e de Governadores-Gerais, a única possível manifestação contrária (27).

Em Moçambique, só após o Concílio Vaticano II e no seguimento das reflexões de D. Sebastião é que o processo de discussão do papel da Igreja no mundo moderno é encetado. Era a designada Renovação Pastoral Missionária, indicadora da necessidade de reflexão e mudança (28). A guerra veio forçar a Igreja a um marcar de posição política, e os reveses sofridos por esta (como a prisão ou expulsão de algumas Ordens e indivíduos) acabaram também por produzir benefícios para a luta independentista (29). »

Francisco Miguel Gouveia Pinto Proença Garcia, “ANÁLISE GLOBAL DE UMA GUERRA (MOÇAMBIQUE 1964-1974)” - Dissertação para a obtenção do Grau de Doutor em História ,Universidade Portucalense . Orientação dos: Prof. Doutor Joaquim da Silva Cunha e Prof. Doutor Fernando Amaro Monteiro.
Porto . Outubro de 2001
http://www.triplov.com/miguel_garcia/mocambique/capitulo3/igreja.htm

22 Maio 2006

NO REINO DE "BIBLOS" (6)- «Fahrenheit 451»,uma distopia tornada realidade?

“FAHRENHEIT 451”, Ray Bradbury


«Ray Bradbury nasce em 1920, em Waukegan, Illinois (EUA). Em 1939, em Los Angeles, funda uma pequena revista de ficção científica, juntamente com outros apaixonados do género. Começa a escrever contos, enviando-os para revistas especializadas que, frequentemente, os publicam.
Em 1950, publica o seu primeiro volume de contos, “Crónicas Marcianas”, que tem um grande sucesso, depois suplantado por “Fahrenheit 451” (1953). A partir dos anos sessenta, começa a trabalhar intensamente como argumentista cinematográfico, não abandonando, contudo, a literatura. Entre as suas numerosas obras, destacam-se: “O Homem Ilustrado” (1951), “Os Frutos Dourados do Sol” (1953), “O País de Outubro” (1955), “A Cidade Fantástica” (1957), “As Máquinas da Alegria” (1964), “Muito Depois da Meia-Noite” (1976), “A Morte é um Acto Solitário” (1984), “Memórias do Crime” (1984) e “Cemitério de Lunáticos”(1990).
O cosmos literário de Ray Bradbury parece pautar-se pela criação e busca incessante de universos paralelos ou alternativos ao que conhecemos. A sua apetência pela ficção científica e o facto de a sua formação académica não ter ido além do ensino secundário parecem ter feito dele uma espécie de génio autodidacta, adquire uma série de conhecimentos que lhe permitem reflectir sobre o que o rodeia, criando e imaginando sociedades e ambientes fantásticos.
O mundo dos anos 50 tinha ainda muito frescos na memória os horrores da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto e das duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão. O avanço tecnológico era já uma realidade e a televisão tornava-se, com sucesso, um entretenimento muito popular. É neste contexto que surge “Fahrenheit 451”. Cinquenta anos depois, esta obra de Bradbury parece fazer ressoar nas nossas mentes uma espécie de profecia, prestes a ser cumprida.
“Fahrenheit 451” é uma novela de ficção científica, e pode ser incluída no rol de narrativas distópicas contemporâneas. A primeira metade do século XX é muito fértil neste tipo de narrativa, que se caracteriza, (no essencial e tal como o nome indica), pela descrição de um lugar ou situação imaginários em que tudo é negativo, por oposição ao conceito de utopia.
(...)Em termos gerais, as narrativas utópicas tratam de modo optimista os temas da condição humana, do progresso e do futuro da Humanidade. No entanto, e citando Robert Elliott, “A utopia de uns é o pesadelo de outros”, pelo que são precisamente as características da utopia que engendram o seu oposto - a distopia.(...) É assim que surgem as amargas narrativas distópicas, como um grito de alerta para os perigos de um futuro mundo opressor, desolador e sem esperança, em que o interesse particular é inevitavelmente esmagado pelo interesse colectivo e em que as massas devoram o indivíduo. Como exemplos de outras narrativas distópicas do século XX, temos: “Nós” (1922), de Eugene Zamyatin, o “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley, e “1984” (1948), de George Orwell.
A obra abre com uma curta explicação sobre o seu título. Numa frase, o autor explica que Fahrenheit 451 é “a “temperatura a que um livro se inflama e consome…”.
“Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar”. É assim que nos é apresentado Guy Montag, um bombeiro que, em vez de apagar fogos, os ateia sobre livros e que desempenha esse papel com bastante prazer. O governo proíbe a posse e a leitura de livros, e uma nova tecnologia permite a construção de casas ”ignífugas” (à prova de fogo) - daí a nova função atribuída aos bombeiros. A acção decorre num futuro indeterminado, numa cidade situada algures nos Estados Unidos da América.
(...)“Fahrenheit 451” aborda de forma notável o potencial criador e ao mesmo tempo destruidor do homem para com o mundo que o rodeia e para com o seu semelhante. É sobretudo interessante acompanhar o percurso da personagem principal, Guy Montag.(...)Certa noite, ao regressar do trabalho, conhece Clarisse Mclellan, uma adolescente que é sua vizinha. Clarisse abre os olhos de Montag para um mundo totalmente novo. Além de ser considerada como anormal e louca pela sociedade, é também considerada “anti-social” pelo governo e proíbem-na de frequentar a escola. Fica intrigado com a personalidade da jovem, mas começa a gostar do seu olhar fresco e novo sobre o mundo, e a reexaminar a sua vida. Habitua-se à sua presença e às suas ideias, até que um dia ela não aparece, descobre, mais tarde, que ela tinha sido morta.
Montag revolta-se e começa a questionar os fundamentos da sua sociedade. Encontra-se com Faber, um professor de literatura reformado e procura uma forma de começar a espalhar livros. Vê-se forçado a confrontar o seu capitão Beatty, que tenta confundi-lo e pô-lo de novo do lado dos bombeiros, percebe que aquele sabe dos livros e vê-se forçado a fazer decisões sobre a sua vida, à medida que esta se desmorona, estrondosamente, à sua volta. Tudo isto tem como pano de fundo a ameaça de uma guerra nuclear iminente.
O cenário aqui desenhado é um dos mais inquietantes jamais concebidos pela ficção científica – sem seres alienígenas, naves espaciais ou armas mirabolantes, aquele mundo lívido e opressivo que deveria garantir o bem-estar universal assalta-nos como se pudesse, um dia destes, olhar para nós e envolver-nos na sua espiral de
controlo, perseguição e terror
.
O
controlo
é exercido por um governo que promove o entretenimento como forma de vida, anulando todo o apetite do espírito.
As pessoas não têm tempo para pensar, não conversam umas com as outras nem contactam com a natureza. Em vez disso, passam horas em frente à televisão, cuja programação, de tipo interactivo, é projectada nas paredes das casas; têm constantemente introduzida nos ouvidos uma espécie de micro rádios e conduzem carros a altas velocidades, nas auto-estradas, para descontracção.
É também promovido o desporto e todo o tipo de competições; proliferam as fitas desenhadas, os filmes, os “comic-books”, as revistas eróticas a três dimensões, os jornais corporativos. Os livros começam a ser resumidos gradualmente, até não restarem mais do que um punhado de linhas – desta forma nivelam-se os conteúdos e garante-se uma igualdade artificial, em que nenhuma minoria sinta os seus interesses ameaçados. Nas escolas, os alunos são submetidos a várias horas de programas televisivos “educativos”, intercalados com aulas de desporto e transcrições de história ou pintura; as pessoas tomam constantemente doses excessivas de comprimidos para dormir e há relatos de várias tentativas de suicídio.
Bombardeadas com tanta informação e tanta actividade inútil, mas que dão a falsa sensação de “movimento”, as pessoas, na realidade “apenas se arrastam”. Foram moldadas ao sistema, estão conformadas, não questionam nada, pois têm a falsa sensação de uma vida preenchida e feliz. Neste cenário, os livros deixaram espontaneamente de ter leitores – para quê atormentar o espírito com dúvidas existenciais, com assuntos filosóficos, com estudos sociológicos, com poesia melancólica, com romances cheios de personagens imaginárias que não existem na realidade? Os livros são vistos com fonte de sofrimento, pois obrigam a pensar e estão cheios de contradições - factos insuportáveis para um espírito habituado à mínima actividade autónoma possível, embriagado, numa espécie de hipnose colectiva. A personagem de Mildred, a mulher de Montag, e as suas amigas, encarnam na perfeição este cidadão-tipo, célula da grande massa anónima, que não questiona, não protesta, pelo contrário, está “feliz” com o actual estado de coisas.
A dada altura, é institucionalizada a proibição de possuir ou de ler livros. Entra em acção a
perseguição da “Vigília do Fogo”, cuja missão é “proteger o optimismo do nosso mundo actual.” Uma das ideias principais que a obra destaca é a da desintegração cultural da sociedade, o crescente desinteresse na ciência, na literatura e na filosofia – a combustão dos livros fica como uma metáfora poderosíssima desta degradação - “O fogo é brilhante, o fogo é limpo.” O fogo simboliza assim a morte da cultura.
O terror acaba por nascer nos corações das pessoas que conseguem conservar a sua lucidez, neste cenário de histeria colectiva – vislumbramos o terror de Clarisse quando descreve as actividades abomináveis dos seus concidadãos, vemos o terror nascer dentro de Montag, quando este decide não fazer mais parte da engrenagem, assistimos também ao terror estupidamente calmo que emana da personagem Helen – a mulher que se faz imolar pelo fogo, dentro da sua própria casa repleta de livros.
(...)Se o propósito do autor ao escrever esta obra era o de propor uma reflexão sobre o mundo em que vivia e alertar as gerações vindouras para os potenciais perigos de pessoas menos bem intencionadas subirem ao poder, manipulando os media e controlando as massas, tal foi magistralmente conseguido. É impossível lermos “Fahrenheit 451” e não traçarmos paralelos com o mundo em que vivemos hoje.
(...)Quanto à profética morte da cultura, materializada no desaparecimento dos livros, é exagerada. Embora existam, especialmente desde o aparecimento da
Internet, várias correntes que, qual arautos do mundo moderno, anunciam que os livros estão irremediavelmente condenados à extinção, o que é certo é que os novos meios tecnológicos têm contribuído para grandes avanços da liberdade de expressão, da participação do indivíduo no espaço público e da divulgação e transmissão de conhecimentos. Basta uma pequena pesquisa na Internet para ver a quantidade de sites
com qualidade, dedicados à literatura ou aos movimentos de cidadania, só para citar dois exemplos.»
(...)

FONTE:
Cláudia Silva, "Fahrenheit 451" - Recensão Crítica
http://iluminadas.weblog.com.pt/arquivo/2005/01/fahrenheit_451.html

NO REINO DE "BIBLOS"( 5) - Bücherverbrennung

BÜCHERVERBRENNUNG
A Queima de livros: 10 de Maio de 1933


Bücherverbrennung significa em Alemão literalmente queima de livros. É um termo muitas vezes associado à acção propagandística dos Nazis, organizada entre 10 de Maio e 21 de Junho de 1933, poucos meses depois da chegada ao poder de Adolf Hitler. Em várias cidades alemãs foram organizadas nesta data queimas de livros em praças públicas, com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades. Estudantes, em particular os estudantes membros das Verbindungen, membros das SA e SS participaram nestas queimas. A organização deste evento coube às associações de estudantes alemãs NSDStB e a ASTA, que com grande zelo competiram entre si tentando cada uma provar que era melhor do que a outra. Foram queimados cerca de 20.000 livros, a maioria dos quais pertencentes às bibliotecas públicas, de autores oficialmente tidos como "pouco alemães" (undeutsch).
Entre os livros queimados pelos Nazis contavam-se obras quer de autores falecidos como também contemporâneos, perseguidos pelo regime, muitos deles tendo emigrado. Na lista encontramos entre outros:
Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Lion Feuchtwanger, Leonhard Frank, Erich Kästner (que anónimo assistia na multidão), Alfred Kerr, Robert Musil, Carl von Ossietzky, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Nelly Sachs, Ernst Toller, Kurt Tucholsky, Franz Werfel, Sigmund Freud, Karl Marx, Heinrich Heine,
Oskar Maria Graf não foi incluido na lista. Para seu espanto, os seus livros não foram banidos como até foram recomendados pelos Nazis. Em resposta, ele publicou um artigo entitulado "Verbrennt mich!" (queimem-me) no jornal "Wiener Arbeiterzeitung" (jornal do trabalhador vienense). Em 1934 o seu desejo foi tornado realidade e os seus livros foram também banidos pelos Nazis.
Em
Munique foi usada a Königsplatz, no dia 10 de Maio de 1933 . Em Berlim a Opernplatz.
FONTE:
Wikipedia: História da literatura/Nazismo

NO REINO DE "BIBLOS" (4) - A Inquisição

A INQUISIÇÃO
O "Index" - Os autos-de-Fé

No mundo cristão, a primeira notícia de uma queima de "livros proibidos" é-nos dada pelos Actos dos Apóstolos.

O sinal de partida estava dado. Durante a Antiguidade e na Idade Média foram condenadas várias doutrinas heréticas e os livros que as continham, tanto pelos papas como pelos concílios. Os livros reprovados não deviam ser lidos nem possuídos pelos cristãos: deviam ser queimados ou entregues à autoridade eclesiástica, e a partir do século XIV estas proibições foram suplementadas com a pena de excomunhão.

Os primeiros livros de que há memória a serem censurados em Portugal pelo poder régio foram as obras de John Wycliffe e de Jan Hus, proibidas e mandadas queimar por um Alvará de 18 de Agosto de 1451, por D. Afonso V.
Mais tarde, há notícia da repressão da divulgação de textos
luteranos por parte de D. Manuel, o que levou o papa Leão X a agradecer-lhe oficialmente em 20 de Agosto de 1521.

Com a instauração da Inquisição em Portugal pela bula Cum ad nihil magis, de 23 de Maio de 1536, proibia-se o ensino da religião judaica entre os "Cristãos-novos" (e entre o Cristãos-velhos, como é óbvio) e o uso das Sagradas Escrituras "em linguagem" (ou seja, em linguagem vulgar, em vez do latim). Passaram a existir três entidades censoras: censura do Santo Ofício, censura régia (ou do Desembargo do Paço) e censura do ordinário.
Os primeiros documentos que temos relativos à concessão de licenças para a impressão referem-se a obras de
Baltasar Dias (a 20 de Fevereiro de 1537) e à Cartinha, uma introdução à "Gramática" de João de Barros, em 1539.

Em 2 de Novembro de 1540, o cardeal D. Henrique, nomeado Inquisidor-mor por D. João III, dava ao Prior da Ordem de São Domingos a autoridade para verificar o tipo de livros vendidos em livrarias públicas ou privadas, além de proibir a impressão de qualquer livro sem examinação prévia. Até 1598, a revenda de livros foi, graças a esta medida, monopólio dos Dominicanos. Nesta data, contudo, o inquisidor-geral, D. António de Matos Noronha espalhou este privilégio por outras ordens clericais.
A
16 de Julho de 1547, a censura torna-se um pouco mais leve graças às directrizes apontadas na bula sobre a Inquisição, Meditatis cordis, mas aparece também o primeiro Index de livros proibidos em Portugal, na sequência do Quinto Concílio de Latrão (1515). A lista reproduz basicamente os livros banidos pela Sorbonne em 1544 e pela Universidade de Lovaina, em 1546.
Na sequência da descoberta pela Inquisição de livros proibidos na posse de professores estrangeiros do
Colégio das Artes, a vigilância sobre os livros alarga-se também para as alfândegas, que passam a verificar mais detalhadamente a ortodoxia dos livros que entram no país. A 4 de Julho de 1551 é publicado outro Índice, onde os censores portugueses, tal como Israel Salvador Revah indica em "La Censure Inquisitoriale Portugaise au XVI siècle" (1960), juntam às obras banidas pelos teólogos de Lovaina, os livros catalogados pelo erudito suíço Conrad Gesner na sua Bibliotheca Universalis, além de outras obras, entre as quais se contam sete autos de Gil Vicente. Este será o primeiro Índex português a ser impresso e que será divulgado em todo o território nacional pelos inquisidores que, de acordo com o Regimento da Santa Inquisição de 3 de Agosto de 1552, deveriam publicar editais, além de obrigarem à entrega de todos os livros indicados na lista, denunciando quem os possuísse.

D. João III, em 1555, dava um exemplo explícito do que deveria ser a Censura preventiva, ao encarregar o corregedor da Câmara do Porto da revisão do Tratado da Arte de Arismética, publicado nesse ano, da autoria do matemático português Bento Fernandes.
Em
1557, o papa Paulo IV, seguindo o exemplo da Universidade de Lovaina e das diligências de Carlos V, ordenou a criação do Índex romano, publicado no ano seguinte (e reeditado em Coimbra pelo bispo D. João Soares), onde se sentenciava à pena de excomunhão latae sententitae (que implicava excomunhão automática) e à "perpétua infâmia" quem possuísse tais livros. A severidade deste papa desencadeou uma onda de pânico entre os livreiros e intelectuais europeus. Portugal não foi excepção.
Em
1561, o dominicano Francisco Foreiro assinou um novo Índice, a pedido ainda do Cardeal D. Henrique que escreveu como preâmbulo uma carta em que, não sendo tão severo quanto o emanado pela Santa Sé, proclamava a necessidade de uma "Censura preventiva".
A
21 de Outubro de 1561, o inquisidor-mor definiu os deveres dos "visitadores das naus", que fariam a vistoria das obras trazidas do estrangeiro pelo mar.
Entretanto, a atitude censória em Portugal foi abertamente reconhecida pelo
papa Pio IV que chamou Frei Francisco Foreiro a secretariar a comissão do Concílio de Trento incumbida da revisão do Índex de Paulo IV.O frade português foi o principal autor das dez regras - que seriam posteriormente aplicadas a todo o mundo católico - que precediam o Índex saído do Concílio, promulgado em 1564 pelo papa Paulo V, bem como de todos os Índices que se sucederiam no futuro. O Índex tridentino foi publicado em Lisboa, no mesmo ano, juntamente com uma adenda designada por "Rol dos livros que neste Reino se proibem" - como se fará, de resto, nos seguintes Índices publicados em Portugal.
D. Sebastião, através de uma lei de 18 de Junho de 1571, também teve um papel importante na legislação portuguesa relativa à censura, ao definir as penas civis a aplicar a quem possuísse obras proibidas. Entre as sanções, há a citar desde a perda da quarta parte dos bens do infractor à perda de metade, acrescida da pena do exílio no Brasil ou em África. A pena de morte era igualmente contemplada. A 4 de Dezembro de 1576, tornou obrigatória a censura do Desembargo do Paço, mesmo após aprovação pela censura do Santo Ofício ou pela censura do ordinário.
Após a morte do Cardeal D. Henrique, há ainda a mencionar a decisão do inquisidor-mor
D. Jorge que, a 15 de Julho de 1579, ordena a queima pública de livros nos autos-de-fé.

Em 1581, D. Jorge de Almeida publica um novo Índex onde é reimpresso o documento tridentino de 1564.
O Regulamento do Conselho Geral do Santo Ofício de
1 de Março de 1570 estipulava que os inquisidores locais deixavam de ter autoridade no que dizia respeito à censura preventiva, que passou a ser da competência dos revendedores deste organismo.
O
papa Clemente VIII publicou, entretanto, o Índex de 1596, o último deste século, reimpresso em Lisboa no ano seguinte.
As Ordenações Filipinas de
1603, emanadas durante o reinado de Filipe II reafirmam a obrigatoriedade da censura preventiva civil, tal como tinha sido imposto por D. Sebastião.
Em 1624, o inquisidor-mor D.
Fernando Martins Mascarenhas fez sair no prelo, subscrito pelo jesuíta Baltasar Álvares, o primeiro Índex do século XVII, que tem a novidade de incluir novas orientações gerais - as regras do Catálogo de Portugal - além das que pertenciam ao Catálogo Universal Romano. O Índex era constituído, por isso, de três partes: o Índex tridentino, o Index pro Regnis Lusitaniae e uma secção (o primeiro Índice expurgatório português) dedicada às passagem a serem eliminadas de quaisquer livros sobre as Escrituras Sagradas, filosofia, teologia, ocultismo e mesmo ciência e literatura. Este Índex manter-se-ia em vigor até ao século XVIII.
Em
29 de Abril de 1722 há, contudo, uma excepção memorável (e única, tanto quanto se sabe) a este ciclo, com a isenção de qualquer tipo de censura, especialmente da censura inquisitorial) para a Real Academia de História, por um Decreto de 29 de Abril de 1722.
Com o regime liberal, a extinção da Inquisição em Portugal levou também, como é óbvio, à extinção da Censura Inquisitorial.

FONTES:
- António de Macedo,"Inquisição e Tradição Esotérica: Acção e Reacção no Colonialismo e Ex-Colonialismo do Império Português IV - As queimas de livros"
http://www.triplov.com/macedo/inquisitio/queimas_livros.htm
- Censura em Portugal/Wikipedia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura_em_Portugal

NO REINO DE "BIBLOS" (3)- "A Muralha e os Livros",Jorge Luís Borges

A MURALHA E OS LIVROS”, JORGE LUÍS BORGES

A prática de destruir livros perigosos ou apenas incómodos é muito antiga e foi partilhada por diversas civilizações e culturas.
«O oriente também se encontra envolvido na metaforologia do fogo. Jorge Luís Borges, o erudito escritor argentino que atravessou quase todo o século XX e abordou mais do que uma vez as conflagrações na sua obra, escreveu uma breve parábola dedicada ao tema – que seria agora escusado designar como heraclitiana, tal a sua evidência – do intercâmbio permanente entre as coisas e o fogo. Em “A muralha e os livros”, Borges parte de uma narrativa sobre o imperador chinês Shih Huang Ti, responsável quer pela ordem de construir a imensa muralha da China, quer pela de queimar todos os livros anteriores ao seu império, para sugerir uma meditação sobre o sentido desses dois actos – o de construir e o de incendiar – que, segundo a sua interpretação, se invalidam de modo imperceptível.
Sendo prerrogativa comum dos príncipes reduzir a cinzas livros e erigir fortificações, o imperador chinês só se terá distinguido pela escala gigantesca em que operou: queimar toda a memória escrita anterior ao seu domínio e cercar, não uma quinta ou um jardim, mas todo um vasto império. Na sua narrativa, Borges relata-nos que muitos dos que tentaram salvar livros, subtraindo-os ao fogo, foram pelo fogo marcados através de ferros em brasa e condenados a erguer até ao último dos seus dias a enorme muralha chinesa.
O escritor interroga-se então se a edificação da fortaleza não deve ser vista como uma metáfora ou um desafio. Tomada como metáfora, os que tentaram salvar os livros foram sujeitos à condição de Sísifo: por persistirem na luta contra o oblívio e pelo cultivo da memória, foram condenados, nas palavras de Borges, “a uma obra tão vasta como o passado, tão torpe e tão inútil”. Vista como desafio, amuralha manter-se-ia intacta até que viesse um outro imperador que a destruísse tal como Shih Huang Ti queimou os livros anteriores ao seu reinado; mas esse futuro príncipe, que assim apagaria a recordação do passado, seria afinal, sem que o saiba,apenas a sombra e o espelho do seu antecessor


In: "Media & Jornalismo", CIMJ, nº1, Ano 1, 2002, pp. 129-141.
"O Fogo e a Cultura Pan-Mediática Contemporânea", José Luís Garcia
http://www.ics.ul.pt/corpocientifico/joseluisgarcia/papers/fogo_media_jorn.pdf

21 Maio 2006

NO REINO DE "BIBLOS" (2) - O Fim da Biblioteca de Alexandria

O FIM DA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Durante uns sete séculos, a biblioteca de Alexandria reuniu o maior acervo de cultura e ciência que existiu na antigüidade, não se limitando a ser apenas um enorme depósito de rolos de papiro e de livros, mas tornando-se uma fonte de investigação para os homens de ciência e de letras que desbravassem o mundo do conhecimento e das emoções, deixando assim um notável legado para o desenvolvimento geral da humanidade.
Nos seus primeiros três séculos, da fundação à chegada de César, consta que as estantes, partindo dos 200 rolos iniciais do tempo de Filadelfo, chegaram a acomodar mais de 700 mil textos em volumes diversos.
No ano de 391, na época de grande intolerância religiosa de Teodósio o Grande, um cristão fundamentalista, o Bispo Teófilo, Patriarca de Alexandria, mobilizou os seus seguidores para a demolição do Templo de Serapium e da soberba biblioteca àquele anexa , que via como um depósito dos males do paganismo e do ateísmo
Não é possível dizer se em 642 d.C., data em que os árabes ocuparam a cidade, a Biblioteca e o Museu ainda existiam na sua forma clássica. Pensa-se que terá sido nesta época que os livros da biblioteca terão sido destruídos, pois eram contrários à fé do povo árabe. O Califa Omar terá ordenado ao Emir Amr Ibn Al que procedesse à destruição dos livros que não estivessem de acordo com o Corão, justificando a bárbara destruição com estas palavras: «Se os escritos dos Gregos concordam com as Sagradas Escrituras, não são necessários; se não concordam, são nocivos e devem ser destruídos».
A destruição da biblioteca de Alexandria é um acontecimento de consequências incalculáveis. Sepultando para sempre a esmagadora maioria das obras da Antiguidade clássica (por exemplo, das 800 peças de comédia grega apenas restam algumas obras de Plauto e Menandro), o incêndio da Biblioteca de Alexandria constitui um dos mais dramáticos acontecimentos de toda a História da cultura.
Como escreve Carl Sagan: “Existem lacunas na História da Humanidade que nunca poderemos vir a preencher. Sabemos, por exemplo, que um sacerdote caldeu chamado Berossus terá escrito uma História do Mundo em três volumes, na qual descrevia os acontecimentos desde a Criação até ao Dilúvio (período que ele calculava ser de 432 mil anos, cerca de cem vezes mais do que a cronologia do Antigo Testamento!). Que segredos poderíamos desvendar se pudéssemos ler aqueles rolos de papiro? Que mistérios sobre o passado da humanidade encerrariam os volumes desta biblioteca?”(1)
FONTE:

18 Maio 2006

NO REINO DE "BIBLOS" - Biblos

BIBLOS


Biblos foi um dos principais centros culturais da Fenicia, antiga civilização semita originária da costa oriental do Mediterrâneo, correspondendo aproximadamente ao actual Líbano, que mais do que um país eram várias cidades-estado com governos independentes,de entre as quais Sidón e Tiro.(1)
O local foi povoado primeiramente duranto o período Neolítico, por volta de 5000 a.C. Segundo o filósofo e historiador Fílon de Alexandria, Biblos era famosa por ser a mais antiga cidade do mundo, sendo um foco de atracção para arqueólogos devido às camadas sucessivas de destroços resultantes de séculos de habitação humana.
Por volta de 1200 a.C., uma prova arqueológica de Biblos mostra aquilo que seria um alfabeto de vinte e dois caracteres; um exemplo importante destas inscrições é o sarcófago do rei Ahiram. (2)
Entreposto do comércio de papiro, os gregos importavam papel egípcio deste centro comercial a que deram o nome de “biblos”, que significava “livro” (escrito em papiro), sendo esta denominação mais recente do que a cidade em si, que originariamente levava o nome semítico de Gubla (em hebraico Gebal), a actual Djebail, situada na costa mediterrânica do actual Líbano, a 42 quilómetros de Beirute.
Aquele termo entra como elemento de formação de vários vocábulos da língua portuguesa, que exprimem a noção de "livro", tais como "bibliófilo", "bibliografia", "biblioteca", "bibliotecário", "bibliotecnia", "biblioteconomia" e muitos outros.

FONTES:
Enciclopédia Fundamental Verbo, vol.I pág.207; Editorial Verbo,1982.
Diccionário Enciclopédico Koogan Larousse Selecções, 4.ª reimpressão ,Julho de 1981,vol.2 pág.1035.
(1)http://pt.wickipedia.org/wiki/Biblos
(2)http://www.proel.org/alfabetos/biblos.html

17 Maio 2006

CITAÇÃO- EXCITAÇÃO - INCITAÇÃO - LAMENTAÇÃO...


14.05.06
dn.homepage » dn.opiniao


Religião: promessas e ópio?
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia




«Entendo - ou julgo entender - as promessas a Nossa Senhora de Fátima, ao Santíssimo Sacramento, ao Senhor dos aflitos ou aos santos.

Habituadas a verem a sobrevivência, a saúde e a sua vida em geral dependentes de senhores e senhoras "omnipotentes", egoístas, arbitrários e tiranos, as pessoas atiram para cima de Deus todos esses atributos. Então, como diante dos senhores deste mundo se põem de joelhos, oferecem como presente o que lhes faz falta, metem cunhas - como é que os pobres chegam a uma operação no hospital sem uma cunha? -, também fazem promessas a Deus e a Nossa Senhora, andam de rastos, oferecem sacrifícios, na esperança de que talvez desse modo Deus e a Nossa Senhora se comovam e tenham compaixão.

Num diálogo com Óscar Lopes, em 1970, no Seminário da Boa Nova, Valadares, sobre a crise da fé, D. António Ferreira Gomes, cujo centenário do nascimento se comemorou no passado dia 10, deixou um pronunciamento polémico. Referindo-se à religião de Fátima, disse: "Sabemos que para baixo de Fátima ainda há todo o culto mágico que, tomado a sério, é uma ofensa profunda a Deus, porque na realidade a magia está a embotar o sentimento religioso do povo. A magia é uma vontade de encadear, de prender as forças sobrenaturais, consideradas mais como malignas do que como benéficas. Ora, isto, em relação à religião cristã, é a maior ofensa que se pode fazer a um Deus de bondade. Mas nós lidamos com isto, lidamos com a religião utilitária, do 'dou para que dês'. Eu prometo, eu faço uma promessa para que Deus me faça isto ou aquilo. Faço um negócio, um contrato. E para quê? Evidentemente, para a vida, para a saúde, para o dinheiro, para isto tudo. Ora, isto, com muita piedade e muita fé no nosso povo, isto não é religião cristã de forma nenhuma."

Já antes, no início da sua intervenção, o então bispo do Porto - voltar ao seu pensamento é homenageá-lo no melhor sentido - referira que tinha uma definição de fé que achava muito boa. Ela encontrava-se numa cartinha breve em que Óscar Lopes lhe dizia que a sua participação na Mesa-Redonda (houve outros participantes, como Luís Moita e Bento Domingues) seria "um depoimento na primeira pessoa do singular acerca daquilo que durante 50 anos julgo ter crido a partir dum fervoroso catolicismo de infância. Apenas desejaria descobrir o melhor de mim mesmo no melhor catolicismo de hoje, e contribuir para tudo aquilo que deveras nos transcende". D. António comentou: "Eu tenho para mim que quem procura pôr-se deveras em relação com aquilo que nos transcende está numa atitude religiosa." E, voltando-se para Óscar Lopes: "Desculpe, senhor doutor, se o ofendo." E Óscar Lopes: "De modo nenhum!"

D. António constatou: "Nós sabemos que a maior parte da nossa boa gente não transcende." E estava completamente de acordo com Óscar Lopes, ao referir a palavra de Marx sobre a religião, ópio do povo. "Segundo me pareceu, disse que Marx foi transformando um pouquinho o seu conceito, mas não penso que precisasse de reformá-lo, pois a religião é realmente muitas vezes ópio para o povo. A religião pode realmente ser ópio do povo. Não é uma palavra de insulto. Evidentemente, não é uma palavra ofensiva na medida em que se não refere ao cristianismo nem a Cristo que continua vivo no Espírito. Mas, repito, muitas vezes para o povo a religião no geral não significa nada de transcendente."

A atitude religiosa aparece, portanto, no movimento do transcender do homem para o transcendente. Onde se encontra então o que é próprio do cristianismo?

D. António afirmou que poderíamos adoptar a linguagem de Bonhoeffer, o teólogo protestante mártir do nazismo, e aceitar que o cristianismo não é religioso, na medida em que o Deus revelado em Cristo não serve para nos solucionar problemas insolúveis e os homens têm de arranjar-se autonomamente sem apelarem para Deus.

O Deus cristão não é ópio nem um deus ex machina com que se negoceia promessas. Ópio e promessas - isso é o religioso que está para baixo. "A religião cristã, entretanto, o limiar diferencial da religião cristã começa quando alguém se debruça sobre o outro, quando alguém se volta para o que o transcende, seja o outro neste mundo, seja Deus enquanto o Outro absoluto, sabendo que a relação ao Outro absoluto é exactamente também a relação ao irmão."

O amor a Deus e o amor ao próximo são um só e têm de exprimir-se também na política. "Nenhum homem responsável da Igreja poderá dizer que não quer saber de política ou que nada percebe de política."»

CITAÇÃO - EXCITAÇÃO - INCITAÇÃO - LAMENTAÇÃO...


PÚBLICO DOMINGO14MAI2006
OLHO VIVO

PADRES E LOBOS POLÍTICOS,
Eduardo Cintra Torres

«Pela primeira vez, a televisão portuguesa apresenta em simultâneo duas séries de ficção a partir de clássicos da literatura, "O Crime do Padre Amaro", de Eça de Queirós (SIC, sábados), e "Quando os Lobos Uivam", de Aquilino Ribeiro (RTP 1, sextas). Tendo em conta a aversão dos operadores em adaptar a literatura, em especial a que recrie ambientes do passado, estas transposições simultâneas no ecrã devem-se por inteiro à qualidade das obras originais. Distando 75 anos entre si, "O Crime" e os "Lobos" saíram das penas de dois expoentes do romance no período 1870-1960.
Antes de passar às adaptações, convém relê-los, não para entrar no dúbio jogo do ganha e perde, mas para ver o que atraiu os autores das versões televisivas. Eis a primeira constatação, tão óbvia que é mesmo preciso dizê-la: são dois romances com narrativas avalassadoras, personagens fortes e espirais de acção imbuída do seu tempo. As duas produções procuraram evitar o problema maior da ficção no cinema e na TV de hoje, o dos argumentos.
Segunda constatação: os grandes autores portugueses têm sido muito políticos na ficção.Estes dois romances são altamente politizados, são motivados por questões políticas (se consideramos que "a questão religiosa" na segunda metade de oitocentos se inscrevia totalmente na política).
Grande número de novelas e romances de Eça, Camilo e outros autores do mesmo período literário e do seguinte (Teixeira de Queirós, Abel Botelho, Carlos Malheiro Dias, Forjaz de Sampaio, Branquinho da Fonseca, Manuel Ribeiro, Ferreira de Castro, Rodrigues Miguéis)tratam directamente de grandes questões políticas ou sociais. O mesmo sucede com obras da segunda metade do século XX e já do presente século, de Cardoso Pires, Agustina, Lobo Antunes ou Saramago, autores que, ao contrário de outros, não se perderam no labirinto dos seus "selves".
(...)O "Padre Amaro" trata da questão religiosa numa época em que o catolicismo era religião de Estado, do peso asfixiante da igreja numa cidade de província, da hipocrisia da beatice, do oportunismo do mau clero.
(...)A vida política dos anos 70 atravessa o romance. Eça não poupa a Regeneração nem os opositores socialistas. No final, Amaro, esquecido já o seu crime perfeito, goza uma tarde maravilhosa no Chiado - e Paris a ferro e fogo com a Comuna. Neste romance, Portugal não tem solução.
Aquilino, 75 anos depois, como que diz o mesmo nos "Lobos". Surpreende neles a forte dimensão política, a denúncia das prepotências do Estado, a corrupçãozinha, o obscurantismo da pide, o servilismo político do sistema judicial. Tal como o "Padre", os "Lobos" não são um romance sobre a política, mas ela perpassa-os.»